Watchmen

Dr. Manhatan, Comediante, Silk Spectre, Ozymandias, Capitão Metrópolis, Night Owl e Rorschach

Dr. Manhattan, Comediante, Silk Spectre, Ozymandias, Capitão Metrópolis, Night Owl e Rorschach

Com o filme prometido para muito breve, vale a pena falar um pouquinho da história em quadrinhos antes que o hype do filme tome conta da internet. E, ainda que eu espere que o filme seja bom (é um filme que eu estou esperando há mais de vinte anos!), não creio que possa alcançar a complexidade do quadrinho. Este post é dividido em duas partes. Na primeira, aberta, eu faço um comentário rápido e sem spoilers; na segunda parte (depois do “Leia Mais”) eu comento sobre algumas coisas que podem acabar com a surpresa de algumas pessoas.

Watchmen foi escrita por Alan Moore, que na década de 80 se consagrou desconstruindo quadrinhos usando os próprios quadrinhos como linguagem. Ele fez isso em “Piada Mortal”, com o Batman e o Coringa, criando uma história de arrepiar. Mas em Watchmen, ele leva isso ao extremo. A história é sobre heróis como eles seriam em um mundo real — ou, pelo menos, mais real que a policromia das revistas em quadrinho. Para fazer a desconstrução, Moore usou um recurso interessante: o tempo e o estilo dos heróis dentro da história acompanham a forma como os heróis eram retratados e interpretados no mundo real. Assim, os heróis da década de 40 são simples; durante a década de 50 eles estão em decadência; na década de 60 eles renascem cheios de problemas psicológicos e, na década de 80, eles são quase anti-heróis.

A história começa com um assassinato. Um senhor de meia-idade, Edward Blake, é jogado do alto de seu apartamento na cobertura de um apartamento de luxo no centro da cidade. Investigando o assassinato, o vigilante Rorschach descobre que Blake é, na verdade, o Comediante, um dos poucos vigilantes ainda em atividade. O que se segue daí é uma história complexa, recheada de mistérios, conspirações e muito mais. Poucas publicações merecem o rótulo Indicados como essa — é uma história que eu leio pelo menos uma vez por ano, e a cada leitura descubro algo a mais.

Os comentários a seguir provavelmente contém spoilers. Não leia, ou muito da sua surpresa vai se estragar. Leia o quadrinho, assista o filme, e só depois retorne aqui e faça seu comentário. Realmente, se você não conhece a história, não leia mesmo o que vem a seguir. No futuro, você vai ficar imaginando como teria sido muito mais divertido seguir a história como o autor a escreveu. Você foi avisado

É difícil comentar a respeito de Watchmen, porque é uma série extremamente complexa. A quantidade de detalhes é incrivelmente grande, mas a correlação entre todos eles é fantástica. A impressão é que não existe nada ali que não tenha sido cuidadosamente pensada por Alan Moore para causar um efeito específico.

Começando pelo argumento básico: nas histórias em quadrinhos, tipicamente, o vilão é um cara ensandecido que quer conquistar o mundo. Sua vilania é indiscutível. Mas, e se o assim chamado vilão, assassino de literalmente milhões de pessoas, não apenas tem ótimas intenções — matar milhões de pessoas para salvar bilhões — e é, ainda por cima, o cara mais inteligente do mundo? Quem somos nós para dizer que o que ele está fazendo é errado? Ou, pior, dizer que havia uma outra alternativa? Pois em Watchmen o vilão é justamente um dos maiores heróis — é um enredo bem típico, o herói que enlouquece em sua tentativa de salvar o mundo. Mas, sério, quem pode dizer que ele realmente é louco?

Seguindo pelo enredo. Começa com um assassinato simples (tão simples como um assassinato pode ser), se transforma em uma enorme teoria de conspiração, e acaba sem deixar mistérios não resolvidos (muitos autores, para “deixar a aura de mistério”, deixam umas coisas no ar, mas isso não acontece em Watchmen).

Além disso, tudo é explicado em um vaivém complexo de flashbacks — mas note, complexo não significa confuso. As histórias de diversos personagens se entremeiam, e cenas são revisitadas de pontos de vista diferentes, a cada momento esclarecendo o que pensa cada personagem. A narrativa também se aproveita de um monte de coisas interessantes: a diagramação das histórias que enfocam Rorschach é simétrica; a conversa de dois personagens se sobrepõe a história de outro; uma história em quadrinhos dentro da história principal indica a interpretação das metáforas e por aí vai.

Por fim, os personagens são bastante marcantes. Cada um deles tem sua personalidade, à qual se mantém, em geral, de maneira obsessiva. Pode parecer estranho, mas é o confronto entre essas personalidades que faz a história se desenrolar, a partir do momento em que os personagens resolvem colocar suas diferenças pra fora. Alguns personagens radicalizam ainda mais sua posição. Outros se tornam mais moles. Nenhum — nem mesmo um ser que pode ser comparado a deus — é imutável.

Como eu falei ali em cima, é difícil falar de Watchmen. Há muita coisa a ser dita, e provavelmente nada menor que um livro completo seria capaz de explicar em detalhes todas as nuances encontradas ali. Recomendável? Mais que isso. Indispensável.

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